sábado, junho 10, 2006

Carta

Porque ontem os poetas me garantiram que, como leitora, tenho toda a legitimidade para me apropriar e "corrigir" os poemas que se tornam meus, aqui fica um que sei de cor.

Carta


Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
(...)

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir,
(...)


é quando ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

Carta | Carlos Drummond de Andrade