quinta-feira, setembro 14, 2006

não há coincidências

'Casa Tomada' é um dos contos de Cortazár que mais me impressiona. É a história de dois irmãos que habitam uma casa de família e vão sendo progressivamente desalojados. É a história do medo em estado puro, da ameaça pressentida, de um invasor sem nome nem rosto. Essas duas figuras, acossadas, vão fechando porta atrás de porta até se colocarem na rua.
Falaram numa alusão óbvia ao Peronismo, e Cortazár não a rejeitou. Talvez, inconscientemente, isso estivesse lá. Mas tudo começou com um sonho e nele era o próprio a ser empurrado, renunciando ao seu espaço em sucessivas retiradas. Acordou antes de transpor a última porta e escreveu 'Casa Tomada' de uma assentada.
Podia passar dias a (des)escrever a simbologia do conto, a perfeição, como tudo está onde deve estar, sem excessos, sem adornos desnecessários, a genialidade do autor, a aparente simplicidade, a linguagem, o ritmo. Mas o que me apetece salientar é uma circunstância lateral.
Este foi o primeiro texto de Cortazár a ser impresso e a decisão coube a um senhor chamado Jorge Luis Borges, ao tempo editor de uma publicação literária. O jovem Cortazár merecia um Borges a quem pudesse confiar o seu conto para apreciação. Nada de coincidências, só mérito.