sábado, maio 20, 2006

bolha

"Se há um lago no meio da tua cabeça, o não só é verosímil, mas normal, ainda que só se possa afirmá-lo com cautela, precisarás de algum tempo para o alcançar. Não há carreiro, nunca há carreiro e, junto das margens, tem cuidado com as ervas, sempre perigosas nesta época do ano. Também não haverá barcos, claro, quase nunca há barcos, mas podes atravessar a nado.

Mais tarde, nunca houve lago, evidentemente. Lembras-te perfeitamente de que nunca houve lago nenhum. Contudo, já há muito tempo que o sono está diante de ti, mais perto do que nunca. Tem a sua forma habitual: uma bola, ou melhor, uma bolha grande, muito grande, transparente, claro, mas não de vidro, talvez antes de sabão, mas de um sabão muito duro, nada gordo, e um pouco friável, ou então, talvez uma pele extremamente fina, muito tensa."


Georges Perec, em "Um Homem que Dorme"