terça-feira, maio 02, 2006

K

Isto de desempacotar a vida tem destas coisas. Encontra-se muita tralha que nem se sabe porque ali foi parar e, de repente, uma saudade, um mimo, uma preciosidade. No meio das muitas coisas estapafúrdias do meu arquivo morto, alguns números da K, que guardo com devoção. Dois, em particular.
Novembro de 92 e Março de 93. Uma aparição fugaz de um outro Portugal, que não dos pequeninos e dos medíocres. Espirituoso, vivo, inteligente, divertido, arrojado, ousado, atrevido, arrogante. Vasco Pulido Valente atacava, cáustico, em todas as direcções mas com um humor de ir às lágrimas. O Miguel Esteves Cardoso escrevia coisas hilárias e luminosas. Rui Zink fazia comentários apaixonados ao "Drácula", de Coppola. Páginas seguidas de roupa interior masculina, branca. Delírios cinematográficos. Descascadelas monumentais nos artistas instalados. Guias de engate com fórmulas de cálculo.
Estava bom de ver que esta explosão de cor e música não podia durar muito.
E o que mais impressiona é que estas pessoas nunca mais escreveram com este profundo gozo, de crianças convictas das suas brincadeiras. E como devia ser contagioso esse entusiasmo, essa criatividade, nessa bolha que era a K.
Para mim, ainda é.